Política da solidão

Clinicalização do estar só escamoteia o verdadeiro mal da sociedade atual

Marcia Tiburi

Algo vai muito mal com a autocompreensão do ser humano sob a crença de que existe um padrão normal dos afetos que calibraria o todo da experiência emocional humana. A crença na normalidade confirma apenas que vivemos mergulhados na incomunicabilidade. Os sentimentos humanos são nebulosos e confusos, mas não são expressos senão por meio de atos desesperados que falam por si mesmos.

Se a norma fosse estabelecida pelo que há de mais comum, teríamos de voltar ao paradoxo de Bacamarte: o anormal é normal, o normal é anormal.

O fenômeno contemporâneo da psiquiatrização da vida nasceu como tentativa de eliminar a estranheza humana. Hoje ele sustenta a indústria cultural da saúde, que se serve do sofrimento humano como a hiena se serve da carniça.

Para os fins do logro capitalista já não basta aproveitar a desgraça do outro, também se pode ajudar a incrementar a produção do infortúnio usando a arma do discurso. A moral une-se à ciência nessas horas e quem paga o preço é o indivíduo humano, do qual se extirpa a capacidade de pensar sobre sua própria vida.

Se a indústria farmacêutica depende da evolução das drogas e dos remédios, depende também da existência de doenças. Criar um remédio pode implicar a criação da doença.

Assim é que uma das mais fundamentais experiências humanas na mira dos sacerdotes da moral que propagam a psiquiatrização da vida é, hoje, a solidão. A banalidade da proposta não é pouco violenta.

Em pesquisa recentemente divulgada, um médico norte-americano definiu a solidão não apenas como doença, mas como epidemia. Tratou-a como uma tendência contrária à evolução. Definida como um erro da “natureza humana”, a solidão passa a ser vista fora de sua dimensão social e histórica. Como doença, ela seria a causa do sofrimento e não o efeito da perda de sentido da convivência entre as pessoas. Em última instância, daquilo que seria o significado mais próprio da política como universo da integração entre indivíduos e comunidades.

Em um mundo em que a política foi destruída pelo poder transformado em violência, a solidão é o sintoma do medo do outro que ameaça o indivíduo.

Diz-se indivíduo daquele que não pode ser dividido, que é inteiro. Podemos dizer que a solidão é constitutiva de si no mais simples sentido metafísico. Mas há a solidão como um fato que diz respeito à vida vivida fora das relações. É essa solidão que deve ser inscrita na filosofia política como afeto político.

Mas não há nada de anormal em um indivíduo viver só. A solidão da qual muitos se queixam hoje como um desprazer pode ser para outros tantos um prazer. Viver em comunidade não faz sentido para todo mundo e isso não leva necessariamente à conclusão de antissociabilidade da qual o indivíduo seria a vítima ou o culpado.

A solidão nas cidades grandes é muito mais um sinal da precariedade do sentido da comunidade e da convivência, é mais um problema sociocultural do que de escolha individual.

Selva de pedra

Certamente ela reflete a impossibilidade de retornar às florestas, como um dia fez Henry Thoreau. As florestas estão em extinção, assim como, curiosamente, a ideia de humanidade. Resta fugir para a moderna caverna na selva de pedra – sem querer reeditar lugares-comuns – que é a casa de cada um.

A solidão é, assim, a categoria política que expressa a nostalgia de uma vivência de si mesmo. Ela é, por isso, a tentativa de preservar a subjetividade e a intimidade consigo mesmo que não tem lugar no contexto de relações sociais transformadas em mercadorias baratas.

A sociedade da antipolítica precisa tratar a solidão como uma pena e um mal-estar quando não consegue olhar para a miséria da vez: o fetiche da hiperconectividade, que ilude que não somos sozinhos.

Artigos relacionados

Comentários (8)

  • Thiago Castilho |

    02/09/2011

    Você é fofa!
    Sua cronica é uma síntese brilhante de nosso tempo tirânico.
    Um beijo do observador.

  • Siegfried Fuchs |

    04/09/2011

    A psicologia trouxe o conhecimento do indivíduo concreto. O uso da ciencia e da técnica é que tem seus problemas e esta é uma questão política. A crítica aponta os problemas.

  • Kênia Garcia |

    21/09/2011

    “…a tentativa de preservar a subjetividade e a intimidade consigo mesmo que não tem lugar no contexto de relações sociais transformadas em mercadorias baratas.”

    Aqui você disse tudo.

  • Ildevagno Caetano de Santana |

    22/09/2011

    A solidão é benéfica, o isolamento não. Segundo Hannah Arendt, na solidão “eu me faço companhia” (atitude necessária à atividade de pensar). O isolamento, por seu turno, é marcado pelo desenraizamento de si mesmo (“atomização”).

  • José Ricardo Venzke de Freitas |

    26/09/2011

    “Se eu paro eu penso, Se eu penso eu choro” É meus amigos, eu amante do ócio tenho que revelar uma coisa milhões de Brasileiros passando para classe média, e na lista de desejos simbólicos é claro inclui um terapeuta, as pessoas passam a ter tempo para pensar, daí do sonho de Aristóteles, Lafargue, Domenico de Massi do Ócio criativo, impera o Ócio introspectivo, solitário, e nessa viagem para dentro de sí,começam aparecer tudo que é tipo de fantasmas e aproveitadores também, portanto eu recomentdo a terapia do analista de Bage(L.F.Veríssimo)que é Nitzscheana também: A terapia do Joelhaço.Que consiste no seguinte: O cara espõe todo seu vazio existencial e o analista da Bagé da um joelhaço no cara, para ele sentir que tem coisa pior.

  • Glerger Sabiá |

    27/11/2011

    De uma tirinha no jornal, mais ou menos assim:

    - Cara, eu sinto um vazio…
    - Pede uma pizza.
    - Não é isso. Eu sinto uma insegurança…
    - Compra um sapato.
    - Não é isso. Eu sinto uma agústia…
    - Liga para a farmácia.
    - Não é isso. Eu sinto uma solidão…
    - Entra no twiter.

  • olavo silva junior |

    07/01/2012

    se você está com as suas ‘energias psíquicas e espirituais’ sadias, quer dizer, se você está no controle e não tem nada (ou tem pouco, afinal..) de patologia e neurose, a solidão é uma delícia e muito necessária..

  • Wilson Moreira |

    17/01/2012

    Como dizia a admirável existencialista Simone de Beauvoir, “vivemos em sociedade, mas somos estranhos uns aos outros”. O medo do outro advém de uma sociedade educada para um narcisismo adstringente – a família, a escola e instituições correlatas nos amestram desde crianças para valorizarmsos o ego e suas adjacências, a família e alguns ‘amigos’, elegendo a alteridade como um estorvo, um empecilho… ou seja, somos analfabetos políticos mesmo, dado que ignoramos sermos individuos sociais…A tal “indiferença pelo outro” que Noam Chomsky abordou com ênfase dialética no Fórum Social Mundial em janeiro de 2003 em Porto Alegre, oito anos após, segue como a fraseologia filosófica mais inteligente produzida fora de ambientes acadêmicos… Essa é a razão porque considero que todo político deveria estudar Filosofia para ter preparo intelectual compatível com a função pública. Wilson Moreira, de Curitiba.

Faça seu comentário

Nome completo
*obrigatório
E-mail
*obrigatório
Website