Mundo Caipira

Nova edição de Os Parceiros do Rio Bonito aproxima leitor da pesquisa etnográfica de Antonio Candido

 

Luiz Carlos Jackson

Transpira na décima primeira edição de Os Parceiros do Rio Bonito o que Antonio Candido e os demais participantes do Grupo Clima designaram como “paixão pelo concreto”, uma atitude intelectual rigorosa, apoiada na teoria, mas orientada pela e para a realidade social e cultural. O cuidado editorial de ampliar o conjunto fotográfico e os registros dos “cadernos de campo” preenchidos pelo autor durante a pesquisa etnográfica que deu origem ao livro aproxima ainda mais o leitor da experiência sensível de quem conviveu prolongada e diretamente com o grupo de parceiros que habitava a Fazenda Bela Aliança, situada no município de Bofete (SP), em duas longas estadias, uma no fim da década de 1940, outra em meados da seguinte.

Nenhuma das qualidades do livro, publicado pela primeira vez no ano de 1964 pela editora José Olympio, supera, a meu ver, a de nos fazer viajar pela intimidade do mundo caipira, cuja existência e importância no processo de formação da sociedade brasileira são resgatadas. Nesse passo, um personagem quase esquecido nas grandes “interpretações do Brasil”, em Casa-grande & Senzala, por exemplo, ganha centralidade: o agricultor pobre vinculado à pequena propriedade. Com os Parceiros aprendemos que nas margens da grande propriedade ou longe dela, nas regiões que ela não alcançou, o caipira (ou matuto, sertanejo, caboclo, tabaréu) construiu seu modo de existência sempre digno, embora precário do ponto de vista material.

Em relação à trajetória intelectual de Antonio Candido, muito mais conhecido como crítico literário, Os Parceiros do Rio Bonito – originalmente uma tese de doutorado – constitui o núcleo de sua obra estritamente sociológica, realizada nos anos em que foi professor de sociologia na Universidade de São Paulo, entre 1942 e 1958. Nesse mesmo período, o autor escreveu, também, A Formação da Literatura Brasileira (1959), coincidência que indica um parentesco entre esses dois livros muito diferentes tematicamente. Ambos dialogam diretamente com a melhor tradição do ensaio histórico-sociológico brasileiro, perscrutando dimensões afastadas de um mesmo processo: a construção problemática do Brasil como nação.

Mudança de foco
Em Parceiros…, Antonio Candido deslocou o foco de análise dos grupos dominantes para um setor dominado da sociedade brasileira. Relacionando história, antropologia e sociologia, referidas nas partes “A Vida Caipira Tradicional”, “A Situação Presente” e “Análise da Mudança”, o andamento do livro extrapola especialidades acadêmicas. Sua escrita, aliás, retém pouco do cientificismo em moda na década de 1950. Ao contrário, o tom quase literário do texto favorece uma leitura fluida e muitíssimo agradável. Na primeira parte, vemos como se formou a sociedade caipira, sobretudo a partir do século 18, na expansão paulista, à medida que os homens abandonavam as expedições e se fixavam no interior. Assimilando o ritmo nômade do bandeirante e a mobilidade do índio, o mundo caipira se caracterizaria pela simbiose com a natureza, a produção de mínimos vitais e sociais e, morfologicamente, pelo bairro rural. Em “A Situação Presente”, o rigor da pesquisa etnográfica remete-nos à antropologia britânica ao descrever minuciosamente a vida dos parceiros de Bofete. Relacionando produção da dieta e sociabilidade – esta retratada nas trocas alimentares, nos mutirões e nas festas religiosas –, revela com sutileza a crise decorrente das transformações ocorridas no mundo caipira, interpretadas em “Análise da Mudança”. Aqui, convergem duas questões que mobilizaram as ciências sociais dos anos 1950, a análise da mudança social sugere a desintegração dessa cultura diante do processo de modernização do Brasil. A conclusão aponta, ainda hoje, para uma reforma agrária que respeite as condições de existência do caipira paulista e do homem rústico brasileiro. Por tudo isso, não se deve duvidar da atualidade do livro, que parece ter incorporado a resistência teimosa do caboclo.

Como disse uma vez Leonardo Arroyo, Parceiros “não é um livro de gabinete. Foi escrito em convivência com o caipira, em sua casa, em sua mesa, em seu mundo mental. Sobe de suas páginas forte cheiro de terra esquecida e de homens abandonados”. Por essas e outras, sua leitura resulta sempre transformadora, sobretudo por revelar um país e uma história infelizmente pouco conhecidos.

Os Parceiros do Rio Bonito
Antonio Candido
Ouro sobre Azul
336 págs. – R$ 53

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