Você tem fome de quê?

Luciana Quintão, a economista que criou um banco de alimentos
Endrigo Chiri Braz
Luciana Quintão: "Existem várias fomes por aí. Existe fome de tudo"

Luciana Quintão: "Existem várias fomes por aí. Existe fome de tudo"

Em 1998, aos 36 anos, a economista carioca Luciana Quintão, então dona de uma editora bem-sucedida, não estava satisfeita. Queria mais. Nada de bens materiais, novos títulos publicados ou dinheiro no banco. Queria ajudar. “Eu achei que tinha condições financeiras e conhecimento para fundar alguma coisa que pudesse prestar um serviço para a sociedade”, lembra Quintão, que é formada em economia pela PUC-Rio, com mestrado em administração pela UFRJ, além da formação antroposófica. Na época já morando em São Paulo, devido ao casamento que lhe rendeu três filhos, Luciana vendeu a editora e decidiu abrir um banco, influência da formação econômica. Mas não qualquer banco.

No lugar de cifras, commodities e juros, trabalharia com frutas, legumes e verduras. “Eu imaginei uma maneira de poupar alimentos e distribuí-los para quem não tinha o que comer”, explica ela. Mas por que a fome? “Existem várias fomes. Existe fome de tudo, de educação, de moradia, de transporte, de justiça, e o alimento é uma metáfora para todas elas, é ele que sustenta o ser humano, é o primeiro combustível.”
De acordo com dados de 2000 do Programa Fome Zero, 44 milhões de brasileiros passam fome. E, para piorar, segundo pesquisa de 2006 da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Brasil desperdiça cerca de 26,3 milhões de toneladas de alimentos ao ano, o que poderia alimentar 35 milhões de brasileiros por mês. São números como esses que, há 11 anos, levaram Luciana a fundar a ONG Banco de Alimentos [www.bancodealimentos.org.br], que hoje distribui 44 toneladas por mês, quantia que alimenta 22.171 brasileiros por dia. Ao lado de sua fiel escudeira, a nutricionista Isabel Marçal, na entrevista a seguir Luciana conta como saciou sua fome de fazer algo pela sociedade dando de comer a milhares de brasileiros carentes.

CULT – Quando e por que você resolveu fazer um trabalho social?
Luciana Quintão – Em certo momento da minha vida eu resolvi fazer alguma coisa boa. Senti que tinha condições financeiras e conhecimento para fundar alguma coisa que pudesse prestar um serviço para a sociedade, e imaginei fazer um banco de alimentos. Por que banco? Porque tem a ver com economia. Lá nos primórdios do sistema bancário, se você investia cinco moedinhas era porque conseguia poupar cinco moedinhas, era essa a relação. Então imaginei uma maneira de poupar alimentos e distribuí-los a quem não tinha o que comer, a quem tinha dificuldade para se alimentar de forma adequada.

CULT – E por que a fome?
Luciana –
Existem vários absurdos, várias fomes por aí. Existe fome de tudo. De educação, de moradia, de transporte, de justiça. E o alimento é uma metáfora para todas as outras fomes, é ele que sustenta o ser humano, é o primeiro combustível. Sem alimento não existe vida, pelo menos da forma que nós conhecemos.

CULT – Antes disso, você acompanhava os dados da fome no Brasil ou só foi começar a se inteirar quando desenvolveu a ONG? Os números de hoje são melhores que no passado?
Luciana –
É que mudou a forma de contabilizar. As pesquisas são muito falhas. Os próprios órgãos de pesquisa reconhecem que não têm estrutura suficiente para poder realmente espelhar a verdade, então são tendências.

CULT – Desde o primeiro momento, o objetivo da ONG é distribuir alimentos que não seriam comercializados e que iriam para o lixo, mesmo estando próprios para o consumo. No que você se inspirou?
Luciana –
Na realidade existem programas parecidos, só que, na época, eu não sabia disso. Em 1998, comecei a pensar sobre o fato de jogarmos tanta comida fora e termos tanto abandono por aí. Mas sabe quando você fica pensando nisso o tempo todo? Aí, conversando, soube do Mesa São Paulo [serviço de banco de alimentos idealizado pelo Sesc], no qual eles faziam exatamente o que eu estava querendo fazer. Então fui conhecer o programa. No começo eles me acharam maluca porque eu, cidadã, queria colocar um projeto desses em prática. Eu passei um ano pesquisando qual seria a forma jurídica de atuar, a melhor forma de estar presente no mundo, e entendi que seria abrindo uma ONG. Foi então que planejei a formação da Banco de Alimentos, adquiri tudo que precisava, fundei a ONG, fiz uma prospecção dos possíveis doadores de alimentos. Num primeiro momento a adesão foi só de hortifrútis, o que é muito bom, por ser uma alimentação saudável. As indústrias deram resposta zero, sendo que mandei mais de 400 correspondências na época, mas isso talvez por não conhecerem o trabalho.

CULT – E como funcionava no começo?
Luciana –
Eu tinha uma Kombi que cedi para a ONG recolher e entregar os alimentos, e depois fomos crescendo. Com um carro tipo furgão é possível distribuir entre 8 e 10 toneladas por mês, quando a gente consegue trabalhar com excelência. Com os quatro carros que temos hoje, distribuímos por volta de 40 toneladas de alimento mensais. Só que nós temos 11 anos de estrada, então às vezes acontecem períodos diferenciados. Por exemplo, agora, nós estamos com uma queda de doações, estamos trabalhando com um carro a menos.

CULT – E por que tem pouco supermercado na lista de doadores? Existe uma resistência das redes de supermercado?
Luciana –
O Sonda é nosso grande parceiro. E o que acontece é que tem a nossa capacidade física de distribuição. Não adianta ter Wal-Mart e Carrefour como doadores porque não teríamos capacidade de recolher os alimentos. Tem uma loja do Pão de Açúcar que doa, a da rua Maranhão, e hoje é essa a nossa capacidade.

CULT – O trabalho de orientação nutricional, o outro lado da ONG, surgiu quando?
Luciana –
Quando imaginei a ONG, queria trabalhar de forma integrada. Além da colheita urbana, que pega onde sobra e entrega onde falta, nós organizamos ações educacionais e profiláticas voltadas às comunidades atendidas, onde entra a consultoria nutricional. E nós temos convênios com uma faculdade de nutrição, então passam por volta de 30 estagiários por ano aqui na ONG, eles fazem seus trabalhos de conclusão de curso, trabalhos maravilhosos. O acompanhamento nutricional nasceu do nosso perfil de trabalho, que visa levar consciência para a sociedade como um todo sobre a questão do desperdício, mostrar como a gente não respeita o alimento. Porque, na verdade, o que falta é respeitarmos o alimento. O Brasil produz 25% a mais do precisa para alimentar sua população, então jogamos no lixo enquanto tem gente passando fome. Não faz sentido nenhum. As pessoas precisam parar para pensar nesse assunto, porque a mudança está dentro de cada um de nós. Dentro dessa forma de trabalho, temos palestras, cursos, workshops, vivências em empresas…

CULT – Recentemente vocês lançaram a campanha “9 Você Pode”, que diz que com uma doação de 9 reais mensais as pessoas ajudam a alimentar um carente com as três refeições diárias e tem o chef Alex Atala como garoto-propaganda. Como funciona esse milagre da multiplicação?
Luciana –
Se nós tivéssemos 10 mil pessoas doando 9 reais por mês, isso resolveria o problema financeiro da ONG e manteria toda a nossa estrutura funcionando. A ideia do 9 é por ser um valor abaixo de 10, uma quantia que as pessoas podem doar tranquilamente, e dessa forma ajudar a manter a operação da Banco de Alimentos.

CULT – E como está indo essa campanha?
Luciana –
Não está como gostaríamos, para falar a verdade.

CULT – No site da ONG, vocês fazem questão de deixar bem claro que distribuem alimentos que não estão mais próprios para o comércio, mas bons para o consumo. No entanto, tem gente que acha que a ONG distribui alimento fora do prazo de validade. O quão tênue é a linha que separa o alimento próprio para o consumo do próprio para o comércio?
Luciana –
Não é nem que os alimentos não estão mais próprios para o comércio. Os produtos não foram comercializados porque o comerciante colocou produtos novos e não vai mais usar aquele alimento, mas não é por isso que ele vai desperdiçar. Quando você vai ao hortifrúti comprar frutas e legumes, por exemplo, leva um alimento que está muito maduro? Ou pega um alimento amassado? Não. Esses alimentos são retirados das gôndolas, e eram jogados no lixo. Outro exemplo, este mais aplicável à indústria, é o excedente de produção que não vai ser comercializado. A Danone produziu 50 mil iogurtes, destes, 10 mil ficaram na câmara e faltam seis dias para vencer. Ela vai conseguir mandar para o atacado, depois para o varejo, para ser vendido a tempo? Não. Antes, isso seria incinerado.

CULT – Vocês acreditam que o povo brasileiro tem a cultura do desperdício?
Luciana –
Eu acredito. Nós desperdiçamos muitas coisas. Assim como falei que a fome é uma metáfora para todas as outras fomes, o desperdício também.

CULT – O Programa Fome Zero trabalha com transferência condicionada de renda para combater a miséria a longo prazo. Vocês acreditam nesse modelo?
Luciana –
Eu acredito que esse programa tem várias falhas, enfim… E não quero ser a especialista na história da fome. Eu fiz meu trabalho de uma forma bem singela, que deu supercerto, graças a Deus. Mas a minha visão pessoal é a de que, enquanto o Brasil não tiver educação eficiente, enquanto as pessoas não tiverem condições de se capacitar de maneira adequada, não houver oferta de saúde para todos, enquanto as condições estruturais não forem mudadas, a tendência são ações mais políticas, mais paliativas, e isso não mudará as coisas a longo prazo. Acho que a estrutura realmente precisa mudar. E a ideia do Fome Zero nunca foi combater o desperdício de alimento.

CULT – O governo conhece o trabalho de vocês? Existe a possibilidade de ampliar com a ajuda deles?
Luciana –
O primeiro programa de colheita urbana do Brasil é o Mesa São Paulo, do Sesc. Até onde nós sabemos, somos o segundo, mas o primeiro desenvolvido pela sociedade civil. Quando o Lula assumiu a presidência, o Mesa São Paulo virou Mesa Brasil, então existe pelo menos um banco de alimentos em cada estado do Brasil.

CULT – O governo está incentivando e investindo na agricultura familiar, já que ela é responsável por 38% da produção agrícola do Brasil. A agricultura familiar é boa porque resolve o problema local da fome, mas os miseráveis urbanos continuam ao relento. Como fazer essa ponte?
Luciana –
Eu não sei. Acho que tem de mudar o esquema todo, a começar pelo ensino nas escolas. Eu acredito muito mais na formação prévia do que em tentar consertar as coisas depois. A grande evolução vai ser a mudança de consciência da sociedade. Por isso, 11 anos atrás, eu, sozinha, quis fazer esse trabalho. Hoje tenho pessoas ao meu lado, como a Isabel, para me ajudar a tocar e transformar a ONG em uma de médio porte. Mas a grande beleza da Banco de Aimentos é ter sido uma iniciativa de uma cidadã que olhou e disse: “Opa, deixa eu ajudar a diminuir isso aqui um pouquinho”. É um assunto com o qual todo mundo deveria se preocupar e buscar fazer a sua parte. As escolas precisam mudar seus conceitos, não ficar só no cognitivo, na matemática, no português, e começar a ensinar valores humanos mesmo: somos todos iguais, não pode ter comida no seu prato e não ter no prato do outro, e por aí vai. Acho que o buraco é muito mais embaixo. Nós temos de refletir sobre valores humanos mesmo.

CULT – Os números do desperdício no Brasil são assustadores. É possível chegar ao desperdício zero ou isso é utopia?
Luciana –
Eu acho desperdício zero uma utopia. Não tem como dimensionar exatamente o tamanho da oferta e da demanda, mas daria para diminuir bem. Então, existem muitos padrões de produtores e de consumidores. Para as pessoas para quem doamos os alimentos, não importa o tamanho do brócolis. Elas comem, agradecem, e nós seguimos fazendo a diferença.
Quanto à indústria, depois que nós entramos em algumas delas para recolher o excedente, elas fizeram uma revisão, não só do controle de qualidade, mas também da produção, para descobrir por que estavam desperdiçando tanto, ou seja, perdendo dinheiro. Isso porque nós quantificamos, coisa que eles não faziam antes. Por exemplo, a Wickbold deu-se conta de que tinha uma quebra de 5 toneladas mensais, e hoje a quebra é de 1 tonelada. Eu sei disso porque nossas doações diminuíram. Outro ponto onde podemos melhorar é na hora do consumo. Esse é o objetivo das nossas ações de aproveitamento integral, levar esse conhecimento até as pessoas para que elas não só aproveitem todo o alimento, mas também aprendam técnicas de congelamento. Você pode congelar milhões de alimentos com técnicas muito fáceis.

CULT – Quais são os bons pensadores da fome no Brasil?
Luciana –
Acho que o Josué de Castro é o primeiro deles. Ele fez o mapa da fome, escreveu muito sobre a questão de que não dá para medir a fome pela pobreza. E outro pesquisador que estuda muito sobre bancos de alimentos é o Walter Behring, da Unicamp. O Betinho tem um papel humanitário enorme porque ele comprou a briga e levou a público a questão da comida como resgate do ser humano.

CULT – Isabel, o que é a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e como ela se aplica? Esse termo não é muito novo, mas tem vindo à tona recentemente.
Isabel –
Segurança Alimentar e Nutricional é quando uma pessoa tem acesso, em quantidade e qualidade, a uma boa alimentação e a um bom desenvolvimento humano. Eu acho essa terminologia muito ampla, mas é com essa política que vários conselhos foram criados para ajudar a tornar as políticas públicas viáveis. É um caminho para o desenvolvimento de ações de melhoria da segurança alimentar. Efetivamente, pode ser que eles realizem algumas ações, mas poderiam fazer muito mais. E outro foco da Segurança Alimentar é a questão da higiene sanitária. Alem de estarem disponíveis na quantidade e qualidade certas, os alimentos precisam ser seguros, limpos. Existem muitas questões para a regulamentação das questões higiênico-sanitárias. Nós, que somos pequenos, nos preocupamos com essa parte. Nossos carros são refrigerados, têm isolamento térmico, os alimentos são transportados em sacolas plásticas. Tudo isso é uma regulamentação que já existe pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Você já viu algum transporte de alimento feito assim em São Paulo? Grande parte da distribuição é feita em caminhões abertos, com os alimentos em caixas de madeira. Além do desperdício natural do processo de transporte, existe o desperdício por contaminação.

CULT – Quais as expectativas para 2010? Alguma nova parceria em vista?
Luciana –
Expectativa de novas parcerias a gente sempre tem. Agora estamos preocupadas mesmo em manter o nosso trabalho, ser uma fonte de referência na área da educação nutricional para continuar espalhando essa consciência. E continuar sempre com a colheita urbana.

Comentários (7)

  • Fernando Mapa |

    20/04/2010

    …Que mulher maravilhosa, que iniciativa bela e sensível.

  • Thiara Caaci |

    23/04/2010

    É bom ver alguém tomar uma iniciativa dessa com base na própria consciência. Achei muito interessante a posição da Luciana Quintão, pois ela reconhece que mesmo com uma ONG relativamente pequena o importante é que as pessoas estão sendo ajudadas a sanar esse tipo de fome,ou seja , com essa atitude ela ratifica que o necessário seria que cada um tive essa espécie de “luz” e fizesse sua parte.
    Gostei muito …. Parabéns !

  • Mariana Fonseca |

    26/04/2010

    Muito legal a iniciativa da Luciana. Como há pessoas que passam fome, num Brasil imenso pela fartura de alimentos? É impressionante a gente saber que isso existe. Se todos fizessem a sua parte, estaríamos vivendo melhor.
    Gostei da matéria!

  • conceição santos |

    27/04/2010

    Parabéns!!! Confesso fiquei motivada muito motivada , aqui no Nordeste a fome convive conosco , é “fome e sede de tudo”… Após ler esse exemplo não há quem continue de braços cruzados.

  • cibele dias cordeiro |

    23/05/2010

    Hoje em cuiabá fiz uma redação sobre essa matéria ãté então ñ a conhecia,e resolvi passar por aqui para ler,e vê se ñ escrevi bobagem.
    Acho q ñ fiz feio ñ,basicamente a minha redação foi baseado nesse texto sem eu mesma o conhacer, fiquei muito feliz com esse trabalho e se todos nós fizermos a nossa parte muita gente vai deixar de passar fome…..

  • José Alberto |

    01/06/2010

    fantastico fantastico fantastico
    não acredito muito em DEUS ma vc deve ser uma DEUSA gostaria de conhecer melhor seu trabalho e quero ser um depositante de 9 reais
    conforme voce solicita mande por e-mail conta e algo que possa ter a certeza que esse dinheiro vhegue em suas mãos.

  • Mila |

    18/07/2010

    Olá, comprei a revista cult mas passei adiante por conta das boas reportagens da edição. gostaria muito de colaborar com a campanha 9 voce pode. também peço autorização para postar trechos da materia em meu blog e twitter. ps a matéria sobre alexandre orion e sobre o tiger estão ótimas.
    obrigada