Resistir às sereias

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A análise do episódio das Sereias, da Odisséia de Homero, está no cerne do pensamento adorniano sobre o grande sistema de dominação social que constitui a Aufklärung.

 

Talvez não haja no livro em­blemático de Adorno e Horkhei­mer, Dialética do Esclarecimento, nenhuma passagem mais famosa do que sua releitura da Odisséia, em particular a retomada do episódio das Sereias. Reler, mais uma vez, essa releitura comporta, sem dúvida, o risco da repetição, mas também testemunha a força da narrativa homérica e, igualmente, a força da interpretação de Adorno e Horkheimer – e, quem sa­be, o poder das próprias Sereias, esses monstros imemoriais, aquáticos e femininos, que continuam a nos encan­tar até hoje, até Kafka ou Blanchot.

Se voltarmos muito rapidamente ao Canto XII da Odisséia, no qual o próprio Ulisses toma a palavra como narrador e conta suas aventuras ao rei Alcino e à sua corte, duas características chamam a atenção. Primeiramente, o episódio das Sereias segue o da “Nekya”, isto é, da descida de Ulisses ao Reino dos Mortos, ao Hades, uma viagem iniciática à fronteira dos tempos e da vida. Dessa viagem, o herói volta mais rico em saber: saber do passado, pois ele se encontrou com sua mãe, já falecida, e com vários companheiros de armas mortos; e saber do futuro, que lhe re­ vela o grande adivinho Tirésias. De volta do Hades, Ulisses retorna à mansão de Circe, a poderosa feiticeira à qual soube resistir e que, agora, lhe ajuda. Ele ali descansa e pede os conselhos da deusa. Essa seqüência da narrativa ressalta a periculo­ sidade das Sereias. Parece, pois, que não basta Ulisses ter triunfado da pro­vação maior: ter ousado ir até o limiar do Reino dos Mortos. Aguerrido, ele deve enfrentar um outro território, no mínimo tão perigoso como o da Morte: o das Sereias, a região do canto e do encanto que a tradição posterior vai identificar com o território da palavra poética.

Deve-se observar, em segundo lugar, que Homero não dedica muitos versos à narrativa do episódio en­ quanto tal da passagem do barco de Ulisses pela perigosa região: somente uns quarenta versos. Em compensação, Circe descreve, antecipadamente e com minúcia, os perigos dos monstros e os meios de lhes resistir; e Ulisses transmite, também com bastante detalhes, esses ensinamentos a seus companheiros. Há, portanto, como que várias dobras narrativas no texto: Circe conta a Ulisses que conta a seus companheiros como enfrentar as monstruosas criaturas; conselhos, advertências, temores e a própria etapa da viagem, todos esses elementos são retomados e contados por Ulisses aos Feácios e por Homero (vamos fazer de conta que um único Homero existiu!) a nós. Entre o poder das Sereias e o poder da narração parece haver uma relação tão íntima e recíproca que um se nutre do outro até o infinito de todas as releituras e retransmissões futuras, como se contar mais uma vez a vitória de Ulisses sobre as Sereias manifestasse, paradoxalmente, o quanto elas continuam a nos subjugar.

Proponho, então, reler a interpretação de Adorno e de Horkheimer como um sintoma a mais dessa subjugação, mesmo que desta última eles pouco falem. Falam muito mais de outros processos de submissão, processos nucleares para compreender o grande sistema de dominação que constitui a Aufklärung (Iluminismo e Esclarecimento numa única palavra): dominar não só o mito pela razão, isto é, dominar a angústia originária do homem frágil perante a natureza e a morte pela explicação racional, mas dominar, também, a natureza exterior pelas ciências e pelas técnicas e, igualmente, a natureza interior pela repressão e pela educação; finalmente, estabelecer e fortalecer a dominação de alguns poucos sobre a maioria dos homens, já que somente a dominação política permite o pleno exercício das outras formas de controle.

O drama (ou a dialética!) desta evolução consiste, dito de maneira muito rápida e grosseira, na cons­ tatação por Adorno e Horkhei­mer (feita em plena Segunda Guerra, não podemos esquecê-lo) de que o Esclarecimento, em vez de “livrar os homens do medo e investi-los na posição de senhores” (Dialética do Esclarecimento, tradução de Guido de Al­meida, editora Jorge Zahar), como era a bela esperança do Iluminismo, acaba por torná-los escravos de uma racionalidade técnica e instrumental, forma tão degenerada como onipre­sente de razão. Em vez de ajudá-los a alcançar a tão desejada liberdade, o Esclarecimento sujeita os homens tanto aos poderes econômico-sociais (Marx) quanto aos poderes econômico-psíquicos (Nietzsche e Freud).

Ora, esse sujeito sujeitado, oposto e complemento do sujeito autônomo que visava o Esclarecimento, esse sujeito encontra a história premo­ni­tória e paradigmática de sua fatal evolução na narrativa épica, na história de Ulisses, que deve renunciar a seus ímpetos mais originários de felicidade e realização para conseguir manter-se vivo, para se conservar a si mesmo. Adorno e Horkheimer relêem a Odisséia como a proto-história exemplar do Mal-estar na civilização, texto fundante deste “excurso” (e, igualmente, do resto do livro, mesmo que de maneira menos explícita): Ulisses deve passar pelo aprendizado de inúmeras renúncias, que a seqüência dos vários episódios da Odisséia representa alegoricamente, para poder chegar a Ítaca e aí conseguir reapropriar-se da realeza, da esposa e do filho, isto é, para conseguir constituir-se em sujeito adulto com uma identidade assegurada. No cer­ne dessa história de renúncia e, simultaneamente, de constituição do sujeito, o episódio das Sereias oferece como que uma condensação de todo o desenvolvimento da Aufklärung: “As medidas tomadas por Ulisses quando seu navio se aproxima das Sereias pressagiam alegoricamente a dialética do esclarecimento.”

Tentemos elencar os diversos mo­ tivos desta alegoria, lembrando que uma interpretação alegórica não é, por definição, nenhum comentário filológico rigoroso, mas sim uma leitura ao mesmo tempo salvadora, porque retoma e transfigura a tradição, e arbitrária, justamente porque não se baseia nos alicerces sólidos da pesquisa filológica. Ou ainda: podemos muito bem discordar da interpretação da Odisséia feita por Adorno e Horkheimer, se se esperar uma análise escrupulosa do texto antigo. Mas não podemos negar a força dessa interpretação como sendo uma leitura renovadora; a partir de uma velha história do passado, de repente convertida em descrição da condição humana, essa leitura da Odisséia nos dá a pensar e nos interroga sobre o processo de civilização e de subjeti­vação que ainda nos constitui.

O primeiro motivo dessa alegoria consiste em interpretar o triunfo de Ulisses sobre as Sereias como o de uma forma emergente de raciona­lidade sobre o mito, mais precisamente, como a transformação da magia em arte. Enquanto monstros imemo­riais, aquáticos e femininos, as Sereias encarnam os poderes mágicos anteriores ao surgimento do sujeito como identidade racional e determinada. Sua força mágica de sedução provém da atração ou da saudade que continua exercendo a representação de uma indistinção feliz entre o si (selbst) e o mundo, lembrança da in­distinção entre o recém-nascido e sua mãe segundo Freud; mas sucumbir à sedução dessa felicidade também significa desistir da individuação e, portanto, arriscar a própria existência: os viajantes que se entregaram às Sereias foram por elas devorados. Ulisses resiste às Sereias, mas não abdica do gozo (incompleto) de escutar seu canto: reconhece o encanto, mas não cede ao encantamento. Neste gesto, os poderes da magia são condenados à ineficácia e, simultaneamente, reconhecidos e mantidos como expressão da beleza e da trans­ cendência: são transformados em expressão artística. Se a arte surge, então, da magia como sua forma mais racional e mais pura, ela também emerge como beleza impotente, sem eficácia, uma expressão sem conseqüências práticas, uma mera forma separada da ação. Adorno e Horkhei­mer enfatizam tanto a beleza quanto a impotência da arte. O que a estética clássica caracterizou como sua grandeza, a saber sua relação com o nobre exercício da contemplação (em grego, theoria), ou seu caráter de “finalidade sem fim” (Kant), também é sinônimo de sua fraqueza maior: não ter mais poder de ação. Somente assim, aliás, a arte é tolerada numa sociedade fundada sobre a dominação.

Assim também, eis o segundo motivo da alegoria, o amador de arte é condenado a um gozo impotente. Sempre se ressaltou, com razão, que Ulisses amarrado a seu mastro é a imagem exata da auto-repressão, condição necessária e desastrosa da transformação do “si” indiferenciado em “eu”, em sujeito de­terminado e identi­tário. Como em Freud, o sujeito deve, na interpretação de Adorno e Horkheimer, reprimir suas pulsões de vida mais originais e autênticas para se constituir a si mesmo e, em particular, para conseguir ter acesso ao reino da liberdade e da beleza, à fruição estética. Ulisses, o chefe, só pode escutar o canto das Se­re­ias porque tapou os ouvidos de sua tripulação, condenada a trabalhar sem nenhum gozo, e porque pediu para ser atado ao mastro, isto é, escolheu sua própria prisão. Mas essa dupla repressão – do dominador sobre os dominados e do dominador sobre si mesmo – não marca somente de uma melancolia incurável o sujeito bur­ guês adulto “bem-sucedido”. Assinala também uma tristeza infinita na origem da possibilidade mesma da experiência artística: Ulisses “escuta, mas amarrado impotente ao mastro”, “o que ele escuta não tem conseqüências para ele”, “amarrado, Ulisses assiste a um concerto, a escutar imóvel como os futuros freqüen­tadores de concertos, e seu brado de libertação cheio de entusiasmo já ecoa como um aplauso”.

Parece-me essencial ressaltar esta incompletude presente no cerne da experiência estética, entendida tanto como criação quanto como fruição ar­ tística. Essa experiência só é possível se for, primeiramente, reservada a poucos, um privilégio de classe em ter­mos marxistas, e, segundo, se ela não levar a nenhuma ação prática relevante. Contra várias leituras da filosofia de Adorno que vêem na sua reflexão estética o lugar de uma possível redenção de alcance sociopo­lítico, Frederic Jameson insiste, a meu ver com razão, nesta “culpa”* inerente à arte numa sociedade de classes: ela é luxo, privilégio, isto é, também sem eficácia decisiva, porque não pode transformar a injustiça da estrutura social na qual ela mesma se enraíza. Forma talvez mais autêntica de felicidade possível nesta sociedade injusta, forma que deixa vislumbrar que uma alteridade radical poderia, sim, ter direito à existência, forma, portanto, de resistência e de criação, a arte só pode continuar a sê-lo se ela se sabe uma forma destituída de força, se não nutre ilusões sobre seus pretensos poderes, se tematiza no seio da própria obra esta falta de completude.

Paradoxalmente, essa fraqueza culpada também se manifesta na terceira figura da alegoria, nos remadores; de ouvidos tapados, eles remam sem parar e conseguem, assim, se salvar a si mesmos e a seu chefe, porque não escutam. As Sereias míticas tinham poderes mágicos sobre a vida e a morte. Mas basta colocar bolinhas de cera nos ouvidos para transformar esses poderes em artigo de luxo, em produto artístico do qual se sabe que existe, que é belo, mas do qual se prescinde muito bem para continuar vivo. Deve-se, aliás, prescindir dele se o trabalhador quiser continuar a trabalhar, produzir, descansar e recomeçar; não é permitido se deixar distrair e desviar do caminho sob pena de morte (de fome, de desemprego). Saber que algo belo existe e, simultaneamente, saber que se pode e se deve viver sem essa beleza testemunha, sem dúvida, a dureza da vida dos dominados; atesta igualmente, volto a insistir, a pouca importância real da arte (e não só da arte, também da filosofia!). Signo de uma outra vida, mais verdadeira, como o afirmam os poetas, a arte também é signo da distância abissal entre o verdadeiro e o real, ou ainda da injustiça da realidade e da impotência da verdade.

É bom lembrar que se os remadores não escutam, não são surdos de nascença, mas tiveram os ouvidos tapados pelo chefe. Pode-se, então, esperar que tirem a cera, que venham a ouvir e escutar novamente, que mudem de remo e de rumo. Essa mudança perigosa – para a ordem do­minante –  deve ser evitada: “Quem quiser se manter não deve prestar ouvidos ao chamado sedutor (…). Disso a sociedade sempre cuidou. Alertas e concentrados, os trabalhadores têm que olhar para frente e esquecer o que foi posto de lado.” Para Adorno e Horkheimer a função principal daquilo que chamam “indústria cultural” consistirá precisamente nisso: evitar por todos os meios que os trabalhadores deixem de ser surdos e ousem ouvir, que possam “ouvir o inaudito com os próprios ouvidos”, “tocar o intocado com as próprias mãos”. O engodo da indústria cultural, cujo poder lembra o da magia mítica, será duplo. Ela mantém as massas surdas, não as encoraja a recuperar a audição e reforça ainda mais essa enfermidade ao fazer acreditar que não há problema nenhum, que todos escutam muito bem. Produz, então, uma série sonora inin­ter­rupta e sempre repetitiva que, por assim dizer, ocupa constantemente ouvidos e cabeças como se não houvesse nem possibilidade de silêncio nem possibilidade de sons outros. A indústria cultural não só mascara a violência social que separa a classe privilegiada (e que pode ter sensibilidade artística) da massa dos trabalhadores; em vez de denunciar a surdez destes últimos, os acostuma a sempre ouvir o mesmo disfarçado de novo, os leva, portanto, àquilo que Adorno chama de “regressão da audição”** – e que somente um intelectual culto, isto é, privilegiado, como o era o próprio Adorno, tem os meios críticos de diagnosticar como “regressão”… Resta saber até que ponto o diagnóstico pode levar a um tratamento eficaz e à cura. Sobre isso, Adorno parece ter tido menos ilusões que vários de seus leitores bem intencionados de hoje.

Uma última observação para não terminar esse pequeno artigo com uma desolação intelectual auto­complacente. Em sua análise da Odisséia (“Le récit primitif” em Poétique de la prose, Seuil), Tzvetan Todorov nota com razão que se Ulisses não tivesse vencido as Sereias, isto é, se tivesse cedido a seus encantos e, portanto, morrido, nunca poderia ter delas falado: não haveria nem Odisséia nem narração poética. E nós não saberíamos nem da existência das Sereias nem da beleza do seu canto. Vencedor das Sereias, Ulisses também delas é herdeiro. Na corte do Rei Alcino, ao tomar a palavra e narrar suas aventuras, o herói se transforma em poeta: naquele que evoca, simultaneamente, a beleza do canto e a perda do seu poder.

Jeanne Marie Gagnebin
professora de filosofia na PUC e na Unicamp, é autora de História e narração em Walter Benjamin (Perspectiva) e Sete aulas sobre linguagem, memória e história (Imago), entre outros