Merleau-Ponty e o olhar renovado

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Eduardo Socha

O centenário de nascimento de Merleau-Ponty (1908-1961) nos faz perceber o quanto ainda é prematura qualquer delimitação satisfatória do lugar que sua produção teórica ocupa na filosofia. Sua fenomenologia, longe de se cristalizar em uma modalidade estanque de pensamento, em uma predicação abstrata e historicamente localizável (poderíamos até mesmo dizer, em um “–ismo” qualquer), mantém até hoje a vivacidade filosófica que sustenta um campo fértil e sempre renovado de pesquisas. Pesquisas que, evidentemente, excedem os limites da filosofia dita acadêmica, para encontrar na psicologia, na estética, na política, na sociologia, alguns de seus resultados mais profícuos. Dito de outra maneira, o centenário mostra que não existe aquele distanciamento temporal necessário e seguro para avaliarmos a importância da obra de Merleau-Ponty na filosofia do século 20, pois, a julgar pelo número crescente de teses e livros que envolvem seu pensamento, estamos tratando aqui ainda de um grande canteiro teórico de obras.

Por isso, como forma de homenagem a um dos principais filósofos do século passado, o dossiê CULT desta edição optou por não se concentrar tanto em seus aspectos biográficos (o engajamento político, a briga com Sartre), nem mesmo em seus textos de intervenção política mais notórios (entre eles, Humanismo e terror). Buscamos privilegiar aqui os elementos fundamentais de sua obra (marcados pelo imperativo filosófico do “reaprender a ver o mundo”), a fim de compreender suas convergências e divergências com a tradição e seus desdobramentos na filosofia posterior e em outras áreas do conhecimento.

Para tanto, convidamos a professora Marilena Chaui, cuja obra, nunca é ­demais lembrar, está profundamente ligada à própria formação da filosofia brasileira. Certa vez, em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, Marilena Chaui declarou que, num olho, tinha a lente Merleau-Ponty, e no outro, a lente Espinosa, e que era tal sinergia que a fazia pensar. Neste texto especialmente preparado para CULT, o leitor terá a oportunidade de acompanhar, portanto, o trabalho interpretativo não apenas de uma das principais intelectuais da história nacional, mas também de uma das especialistas mais influentes a respeito da obra de Merleau-Ponty. Assim, algumas das referências centrais do projeto filosófico merleau-pontyano são aqui descritas: os pressupostos da fenomenologia, a noção de experiência, o parentesco entre filosofia e arte, as formas da memória e da assimilação cultural.

O peso da tradição filosófica na constituição da fenomenologia é analisado aqui pela professora Débora Morato Pinto, que insiste em um fato de certa maneira inovador nos estudos sobre Merleau-Ponty, comprovando o quanto ainda pode ser desvelado no trabalho de exegese de seu pensamento: a influência exercida pela filosofia da duração de Bergson.

Partindo das considerações sobre o mundo infantil nos textos de Merleau-Ponty e Lacan, Eran Dorfman aborda as relações entre a fenomenologia e a psicanálise lacaniana e chama a atenção para o papel que a fenomenologia, enquanto “filosofia vigilante”, pode desempenhar na explicação dos problemas da subjetividade e do mundo contemporâneos.

Por fim, Cristiano Perius avalia a função da arte nas operações redutoras, de descrição da experiência, que caracterizam a fenomenologia, cujo objetivo afinal é descobrir o mundo antes do saber conceitual. A filosofia de Merleau-Ponty, como o leitor poderá perceber, permanece fonte inesgotável para as reflexões contemporâneas alicerçadas no primado da percepção e no reencontro da unidade fundamental do mundo.

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