Maquiavel e o republicanismo

TAGS:

Mais do que formular um novo conceito de verdade, ele nos ensina a deixar de lado formas políticas imaginárias

A história da recepção da obra de Maquiavel foi marcada, desde o século XVI, pela insistência de muitos intérpretes em descrever suas análises da política como exemplo acabado do cinismo e da amoralidade, convertidos em regra do convívio dos homens. Associar o nome do escritor ao diabo, ou atribuir-lhe uma defesa ilimitada da tirania foi o caminho dos que quiseram defender uma plena submissão da política a regras que lhe são exteriores. Essa interpretação acabou se refletindo no vocabulário de quase todas as línguas ocidentais, deixando “maquiavelismo” seu campo semântico original para se tornar um operador corrente da linguagem política. 

Tão antiga quanto o antimaquiavelis-mo de alguns, porém, é a percepção de que a obra do escritor florentino contém uma forte defesa da República e de valores a ela associados. Vários contemporâneos seus o associavam a essa posição, assim como pensadores que, a exemplo de Espinosa, se serviram de seus escritos para elaborar a defesa dos regimes livres. Em nossos dias Claude Lefort e J.G.A. Pocock são os herdeiros mais consistentes dessa tradição.   

Depois de mais de cem anos de um cenário histórico dominado pelo apelo às utopias e pela crítica a seus efeitos na vida das nações, chama a atenção em Maquiavel seu apego ao que denomina de “verdade efetiva das coisas”. Mais do que formular um novo conceito de verdade, ele nos ensina a deixar de lado formas políticas imaginárias para concentrar nossos esforços de compreensão nas condições objetivas que presidem as ações humanas: a ambição, o desejo de glória, o medo, os interesses materiais.

Tomando partido por uma leitura republicana de sua obra, acreditamos que essa forma de conduzir as análises da realidade nos previne quanto a uma formulação utópica do que seja uma República.

Um segundo ponto a considerar é o papel por ele atribuído à fortuna e a virtù. Com esses termos, Maquiavel nos ajuda a situar nosso campo de análise longe de uma visão determinística da história. Em seus escritos, ele nunca disse que os acontecimentos históricos não têm sentido. Ao contrário, acreditava firmemente que era possível descobrir os fios que uniam o passado e o presente através do estudo acurado dos acontecimentos. Mas isso não quer dizer que possamos saber em qualquer ocasião como devemos agir. A história é fruto do encontro da capacidade de agir dos homens – sua virtù – com a indeterminação das forças que compõem o campo da política – a fortuna.

O republicanismo que associamos a Maquiavel tem assim como ponto de partida o elogio da ação e da participação dos cidadãos na arena pública. Num mundo no qual nenhuma receita quanto ao que fazer para criar um futuro melhor tem validade universal, os homens não podem deixar de agir, se não quiserem ser tragados pelo conjunto caótico de forças que intervêm na história. Não se trata de defender a virtude dos cidadãos como um bem abstrato, mas de mostrar o papel da participação num território que não é inteiramente dominado nem por leis fixas da história, nem por forças cegas de mercado.

Outro aspecto decisivo para se pensar o republicanismo de Maquiavel é o papel atribuído aos conflitos e às divisões do corpo político. Contra uma longa tradição do pensamento ocidental, ele não via na unidade o objetivo maior da vida em comum dos homens, pois o desejo de alcançá-la pode levar à destruição da liberdade. Um regime livre é aquele capaz de acolher em suas instituições as disputas e as diferenças entre seus cidadãos e não um sonho irrealizável de perfeição e harmonia entre todos.

Newton Bignotto
professor de Filosofia na UFMG e autor de Maquiavel republicano (Loiola), Origens do republicanismo moderno (Ed. UFMG), O tirano e a cidade (Discurso Editorial) e Maquiavel (Jorge Zahar, a sair ainda em 2003).

Artigos relacionados