Entre o elogio e a crítica

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As relações de Foucault com a psicanálise: etapas da recepção brasileira

Ernani Chaves

A publicação do primeiro volume da História da sexualidade, intitulado “A vontade de saber”, em 1976, provocou um frisson entre os psicanalistas. Neste livro, ao contrário dos anteriores, Foucault dirigia à psicanálise uma severa crítica, ao inscrevê-la na história da confissão cristã e na engrenagem dos mecanismos do biopoder. Não que nos livros anteriores a psicanálise aparecesse isenta de críticas. Ao contrário. Entretanto, essas críticas eram sempre matizadas, nuançadas também por diversos elogios. O ponto alto desses elogios tinha sido, sem dúvida, o último capítulo de As palavras e as coisas (1966), quando Foucault considerava a psicanálise como uma contraciência que questionava, radicalmente, o projeto de um saber “científico” sobre o homem, que havia sido pacientemente gestado desde o final do século 18.

Da polêmica a propósito da História da sexualidade, o leitor brasileiro passa a tomar conhecimento com a publicação de “Sobre a História da sexualidade”, discussão de Foucault com os lacanianos da revista Ornicar?, publicada na edição de julho de 1977 da revista e incluída na coletânea Microfísica do poder, publicada no Brasil em 1979. Não se tratava, é bom que se diga, de quaisquer “lacanianos”, mas daqueles que, em torno de Jacques-Alain Miller, assumiam o lugar de defensores da “ortodoxia” lacaniana e os mais dignos representantes do mestre. Entretanto, o público brasileiro que compareceu ao famoso ciclo de conferências intitulado “A verdade e as formas jurídicas”, proferidas em maio de 1973 na PUC do Rio de Janeiro e publicadas em 1974 nos Cadernos PUC, teve a oportunidade de assistir a uma confrontação direta de Foucault com a psicanálise. Naquela ocasião, ao final do ciclo, Foucault e, principalmente, o psicanalista Hélio Pelegrino discutiram a propósito da questão do Édipo e Foucault criticava a psicanálise tomando partido, explicitamente, tanto dos helenistas franceses da escola de Jean-Pierre Vernant, quanto de Deleuze e Guatarri, que haviam publicado há pouco o Anti-Édipo. Sua perspectiva, dizia Foucault, não levava em consideração nem a questão do “mito”, muito menos a da “interpretação”. Tratava-se, simplesmente, de analisar um texto, o da tragédia de Sófocles, no que dizia respeito às práticas jurídicas e sua relação com a verdade. Às vezes, é indisfarçável a impaciência de Foucault: “Repito que não sou psicanalista mas surpreendo-me quando ouço dizer que a psicanálise é a destruição das relações de poder”, diz ele a Hélio Pelegrino. Apresentando-se como “historiador”, Foucault afirma encarar a psicanálise como um “fenômeno cultural” de “real importância no mundo ocidental”, mas de modo algum a considera uma confrontação com as relações de poder (como queria Pelegrino, pensando certamente no contexto da ditadura brasileira), mas, ao contrário, se dirigia para os processos de normalização. Há um “esforço”, acrescenta um benevolente Foucault, no sentido de destruir as relações de poder no interior da psicanálise, mas isso não seria suficiente para pensá-la como uma “ciência que questiona o poder”.

Entre o elogio e a crítica

Por ocasião de um colóquio realizado na USP, em abril de 1985, em homenagem a Foucault que havia morrido em junho de 1984, Renato Mezan, já um eminente psicanalista e professor universitário (acabara de publicar seu volumoso Freud, pensador da cultura) proferiu a conferência intitulada “Foucault e a psicanálise”. Mezan procurava mostrar em que sentido as ideias de Foucault eram importantes, mas, ao mesmo tempo, apontava os equívocos de suas análises, focando agora a História da sexualidade. No livro Foucault e a psicanálise, analisei, em especial, duas obras de Foucault, História da loucura e o já mencionado primeiro volume da História da sexualidade, partindo do princípio de que, em ambos, apesar da distância temporal entre eles Foucault deixava clara sua posição em relação à psicanálise. Uma posição que chamei de “ambígua”, uma vez que oscilava entre o elogio e a crítica.

A publicação, em 2000, do livro de Joel Birman, Entre cuidado e saber de si: sobre Foucault e a psicanálise, coroa, por sua vez, uma segunda etapa da recepção, caracterizada, desta feita, pela publicação dos quatro volumes dos Dits et écrits (1994), no Brasil, Ditos e escritos (Forense Universitária 2002). É importante, entretanto, afirmar que Joel Birman é, dentre os psicanalistas brasileiros, aquele que mais escreveu sobre Foucault, aquele que mais levou e leva em consideração, para seus estudos no campo da psicanálise, o pensamento de Foucault. Servindo-se agora do material publicado nos Dits et écrits, Birman analisa um a um os livros de Foucault. Neste ponto sua análise não tem nenhuma novidade, embora Birman faça tábula rasa das publicações que lhe antecederam, mas, ao mesmo tempo, ele amplia as análises precedentes na medida em que já toca num tema que será a tônica da discussão nos anos subsequentes, qual seja, a da implicação da psicanálise com a biopolítica, a partir dos estudos de Foucault sobre o “cuidado de si” em oposição ao “saber de si”. O livro de Birman retoma uma questão que parecia estar esquecida ou mesmo colocada em segundo plano. Sua conclusão, entretanto, é bastante prudente, ao colocar a psicanálise num “entre” o saber de si e o cuidado de si, mantendo assim, no geral, a mesma oscilação na avaliação crítica de Foucault em relação à psicanálise.

Mas, por outro lado, Birman trazia à tona, explicitamente, um embate fundamental para a compreensão da posição de Foucault em relação à psicanálise: a figura de Lacan. É contra ou a favor de Lacan, em grande parte, que a posição de Foucault em relação à psicanálise se organiza. Eu diria mais: Lacan é muito mais estratégico para Foucault, do que a tradição freudo-marxista. Lacan é um adversário muito mais difícil a ser batido, até porque, em vários momentos, ambos se banharam nas mesmas águas e partilharam dos impasses e tensões que cercaram a filosofia francesa do pós-guerra. Merleau-Ponty, Lévi-Strauss e Heidegger, por exemplo, eram leituras exemplares para ambos. São muitos os elogios de Foucault a Lacan e, não esqueçamos que o caráter de contra-ciência da psicanálise em As palavras e as coisas deve-se, em grande parte, a aliança de Foucault com Lacan.

Fora do campo histórico

Como bem lembra Joel Birman, a concepção do inconsciente como linguagem encontrou em Foucault reconhecimento e acolhida. Lacan foi, portanto, em diversos momentos, um aliado. Mas também foi o inimigo a ser batido: para justificar isso, basta lembrar a crítica de Foucault, em “A vontade de saber”, às imbricações entre lei e desejo como expressão da concepção jurídica de poder. Do meu ponto de vista, também aqui Foucault se afasta do Anti-Édipo, livro ainda visceralmente ligado à questão do desejo; o livro festejado alguns anos antes, torna-se agora uma espécie de reverso da psicanálise, sem, entretanto, alterar radicalmente a ordem das coisas. Trata-se sempre e ainda de… desejo. Na “Introdução” a “O uso dos Prazeres”, o segundo volume da História da sexualidade, Foucault dirá que não se interessa nem pelo desejo, nem pelo sujeito do desejo. Seu interesse é histórico e essas preocupações, sob a égide do desejo, estão fora do campo histórico.

A publicação a partir do final dos anos 1990, dos cursos de Foucault no Collège de France muda radicalmente o panorama da recepção. O curso “Hermenêutica do Sujeito” de 1981-1982, publicado no Brasil em 2004, passa a ser lido e comentado exaustivamente. O Foucault “filósofo do poder” torna-se o “filósofo do cuidado de si”. Ao mesmo tempo, as análises do filósofo italiano Giorgio Agamben a propósito do biopoder e da biopolítica vão colocar na ordem do dia as questões abertas por Foucault nas páginas finais de “A vontade de saber”. Assim, no panorama atual, a questão das relações entre Foucault e a psicanálise passam a ser diretamente associadas, por um lado, à questão do cuidado de si e, por outro, à da biopolítica. Psicanálise e cuidado de si, psicanálise e biopolítica passam a se constituir no problema a ser estudado e enfrentado. Até onde sei, em que pese o considerável número de artigos e de teses a respeito, há apenas um livro publicado sobre o assunto: de Marcus Teshainer (2006). Entretanto, muitos psicanalistas e pesquisadores em psicanálise têm-se pronunciado a respeito da questão com bastante veemência e, neste diapasão, a psicanálise, em especial na sua versão lacaniana, aparece diretamente vinculada ao “cuidado de si”.  Lacan é invocado, muitas vezes e de forma paradoxal, como uma espécie de Foucault avant la lettre, que já criticava, há bastante tempo, a relação entre psicanálise e poder. De todo modo, trata-se de um tema e de uma questão em aberto, com muitos outros ângulos e perspectivas à espera do paciente trabalho de investigação.