Cultura para todos

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A renovação aportada por Gramsci ao conceito de cultura atesta a vitalidade não adormecida de seu pensamento

Giorgio Baratta

“Cultura” – escreve Gramsci no 23º de seus Cadernos do Cárcere (1929-1935) – “é uma concepção de mundo e de vida, coerente, unitária e de difusão nacional; é uma religião laica. Uma filosofia que se tornou cultura gerou um modo de viver, uma conduta civil e individual”.

Grande coisa? Uma definição, como se vê, por um lado muito ampla, mas por outro poderia parecer adequada apenas a uma elite de intelectuais. Gramsci, em outro lugar, recorda no entanto que “todos os homens são filósofos”. Mesmo o “folclore”, a “religião popular”, a cultura nos níveis mais imediatos e primitivos são considerados uma “concepção de mundo”, ainda que desagregada e incoerente.

“Cultura” é, no pensamento de Gramsci, uma categoria extremamente diferenciada e móvel, um instrumento de transição, destinado a acompanhar ou sustentar aquela transformação do “senso comum” que deverá permitir a superação da oposição entre dirigentes e dirigidos, bem como entre intelectuais e não intelectuais, e representar o advento de uma “cultura mundial”, na qual o eurocentrismo ou o ocidente-centrismo serão apenas recordações do passado.

Esse ambicioso e corajoso projeto não é fruto de um pensamento utópico, seja abstrato, seja concreto, mas uma resposta possível às mudanças de época na passagem do século.

Giro conceitual

Pode-se dizer que Gramsci, com os Cadernos, imprimiu ao conceito de cultura um giro análogo àquele que o filósofo Walter Benjamin (1892-1940), naqueles mesmos anos, introduziu no conceito de “arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, com seu ensaio de 1936. Observações esparsas de Gramsci, como aquela sobre a importância do “‘sucesso’ internacional do cinematógrafo modernamente, e antes do melodrama e da música em geral” – a qual é a “linguagem mais universal hoje existente” e produz, dirá mais além, “imagens e impressões totais” – em relação “a uma política de cultura das massas populares”, aproximam a revolução cultural de Gramsci àquela artística de Benjamin.

Trata-se da irrupção e do revolvimento que a sociedade de massas, caracterizada pela centralidade da técnica e da tecnologia, determina nos templos sagrados da arte, que perde sua “aura” (Benjamin), e da cultura que, como escreve o filósofo Herbert Marcuse (1898-1979) em um ensaio de 1937, perde seu tradicional “caráter afirmativo”, aquele “reino transcendente de fins e valores”.

Gramsci universaliza a cultura alargando seu âmbito e poder, colocando-a em uma relação paritária de entrelaçamento com a produção e a política, fazendo-a circular sem solução de continuidade (a não ser aquela, por sua vez decisiva, da contradição de classe) entre grupos ou estratos dominantes e subalternos. A cultura espraia-se em todas as direções além de seus confins habituais e, desse modo, arrisca-se a perder sua identidade. Esse risco permanente determina a ambivalência da novidade que a caracteriza. Ainda aqui vale a analogia com a análise de Benjamin. Submetidas aos processos de massificação, tecnificação, padronização, tanto a arte como a cultura – cada uma a seu modo – revelam uma destacada disponibilidade a uma funcionalidade totalitária ou “fascista” (como afirma Benjamin). Mas abrem-se, ao mesmo tempo, perspectivas democráticas e revolucionárias, desconhecidas no passado.

Alta cultura e cultura popular

Não existem mais cultura e incultura, mas alta cultura e cultura popular; uma distinção que reflete e reproduz a divisão social do trabalho e está destinada, como dissemos, a desaparecer com a superação (se houver) daquela divisão social. Aquilo que aqui é importante, a propósito do conceito de cultura, é sua difusão, pela qual ela investe, como dizia o antropólogo Edward B. Tylor (1832-1917) há quase um século e meio, “o complexo das atividades e dos produtos intelectuais e manuais do homem-em-sociedade”. Se é assim, evidentemente “cultura” não concerne a uma esfera separada da vida social, mas à própria vida social em geral, segundo uma curvatura particular que Gramsci chama de luta hegemônica.

Detemo-nos sobre esse ponto porque tem origem aqui um arco histórico muito amplo, que vai da primeira obra que estuda os “povos primitivos”, no sentido mesmo que embrionário da moderna antropologia, isto é, desde Primitive Culture, de Tylor (escrito em 1871), e chega às populações, grupos sociais e indivíduos, objeto hoje dos subaltern studies, dos quais o trabalho levado a cabo pelo historiador Ranajit Guha na Índia a partir de 1982 é expressão orgânica e madura. O pensamento de Gramsci ocupa um ponto central nesse arco.

Citamos Guha, que faz explícita referência a Gramsci, mas antes mesmo dele deveríamos fazer referência a Stuart Hall e Edward Said (1935-2003): um, jamaicano negro naturalizado inglês, fundador do Centro de Cultura de Birmingham e da Universidade Aberta de Milton Keynes, ainda produtivamente ativo; outro, palestino-americano, docente de literatura comparada, acadêmico de fama mundial da Universidade Columbia, falecido em 2003.

Tanto Hall como Said sentiram na própria pele a formação, por enquanto germinal, de uma cultura “concretamente mundial”, para usar as palavras de Gramsci. Ambos, grandes
intelectuais, deram em suas próprias obras um grande espaço ao “pensamento popular”, mas também criticando, em última análise dissolvendo aquilo que Gramsci denominava de “mumificada cultura popular”.

Os cultural studies

Estamos em presença de uma das maiores “contradições produtivas” do pensamento gramsciano, mas também de Hall e de Said. O ponto é recolher, analisar, combater as dicotomias inerentes ao conceito de cultura, na consciência de que os polos de cada uma dessas dicotomias assumem ou assumirão um sentido diverso – uma tradução – na perspectiva da superação dessas mesmas dicotomias. A fase que Hall e Said expressam talvez possa ser denominada de uma transição bloqueada. Entre as duas possibilidades existentes na mundialização-massificação-tecnificação da cultura, pressagiada como vimos por Benjamin e Gramsci, os pratos da balança parecem pender hoje para o lado totalitário-fascista mais do que para o democrático-revolucionário.

Uma simples consideração parece agora oportuna a propósito do conceito de cultura na interpretação de Hall e Said. Os cultural studies, como são compreendidos por Hall, representam uma etapa ulterior com relação a Gramsci de desterritorialização ou colocação extradisciplinar ou adisciplinar da “cultura”.

Cultura, para Hall, não é tanto um objeto de estudo quanto um modo para estudar fenômenos que possam ser especificamente “culturais”, sejam imediatamente sociais, políticos, econômicos etc. O escopo não é puramente cultural, mas político, no sentido de que os cultural studies consentem uma modalidade-movimento de reapropriação (por parte dos intelectuais “orgânicos”, ainda que sem partido ou grupo social de referência) dos processos que por outro lado restam apanágio de estudos separados, isto é, acadêmicos e elitistas, ou sociológicos e populistas, e assim por diante.

Contraponto

Said, por sua vez, conjuga cultura com “contraponto”. Retomando a terminologia do sociólogo estadunidense William Graham Sumner (1840-1910), se poderia dizer que Said estuda estruturalmente e comparativamente a conexão dinâmica, constitutiva da realidade, entre “nós” e os “outros”. Said escreve um século depois de Sumner, quando a tradicional relação entre centro e periferia entrou em crise e as periferias tornaram-se ou aspiram tornar-se centros. Os “outros” estão postos como “nós” (lógica pós-colonial) em múltiplos modos, frequentemente imitando a pior face dos originais “nós”. Mas o processo é, enfim, definitivamente encaminhado, ainda que continue a dominar a dimensão ocidental do “nós” (imperialismo). A grandeza de Said está em assumir na metodologia científica todos os lados – velhos e novos; pacíficos e conflituosos; históricos e geográficos; disciplinares, interdisciplinares e adisciplinares – do “contraponto” entre nós e os outros.

Ranajit Guha escreveu que o singular destino da obra de Gramsci é o de encontrar interpretações e usos criativos “fora de casa”, e mesmo muito longe de casa, ou seja, da Itália e da Europa. O que existe de verdade nessa afirmação é atestado pela vitalidade não adormecida desse pensamento.

Creio que seja propriamente a América Latina, e particularmente o Brasil – onde Gramsci tem, pelo menos no contexto político da esquerda, estimulado tendências críticas e democráticas –, a região na qual seja possível medir essa vitalidade. A renovação aportada por Gramsci ao conceito de cultura não é pouca coisa nesse processo.