As fontes literárias e arqueológicas para o estudo da mitologia grega

Os gregos antigos não deixaram gravações de cânticos, poemas ou fábulas, mesmo assim muita coisa chegou até nós

 

Como podemos conhecer a mitologia grega? A resposta pode parecer óbvia: por meio de suas histórias, não é mesmo? Bem, mas essas histórias chegaram até nós por diversos meios. Para que se possa estudar o passado, sempre temos de recorrer às fontes, aos documentos. Os gregos antigos não nos deixaram gravações dos seus cânticos, poemas ou de suas fábulas, que se ouviam no dia-a-dia das cidades gregas antigas: claro, não havia gravadores de voz. Tanto tempo depois, o que chegou até nós?

Em primeiro lugar, temos a tradição textual, todas as reproduções copiadas, durante séculos, dos escritos antigos, em duas línguas: grego e latim. A maioria das histórias mitológicas aparece em poemas antigos, como na Ilíada e na Odisséia, de Homero, e nos chamados Hinos homéricos, mas temos também uma poesia como a Teogonia de Hesíodo, que viveu por volta de 700 a.C. Outros grandes mananciais são as obras teatrais, as tragédias que retratam muitos personagens históricos e míticos, como o famoso caso de Édipo, de Sófocles (431 a.C.).  A prosa, igualmente, apresenta muitas referências mitológicas, mesmo em obras sarcásticas como o Diálogo dos deuses de Luciano, do século 2 d.C. Por outro lado, como os gregos foram educados em sua mitologia através da transmissão oral, apenas relativamente tarde encontramos um acervo de mitologia grega. O primeiro acervo sobrevivente, e o melhor, data do século 1 ou 2 d.C. A autoria é geralmente atribuída ao grande gramático Apolodoro de Atenas e o livro intitulado A biblioteca, para indicar sua abrangência. Apolodoro é de grande importância para nós, e como a mais útil fonte isolada de mitologia grega, é sempre citada em todos os trabalhos que versam sobre o tema. Na verdade, ele não relata todos os mitos gregos, nem inclui todos os detalhes, mas fornece uma narrativa da maioria dos mitos que passaram a ter importância para além dos limites da cidade-estado local. É, sobretudo, sua interpretação do que ele julga ter importância que moldou nossa noção atual e relativamente estável do que entendemos por “mitologia grega”. Há ainda referências importantes em autores latinos, como nas Metamorfoses, de Ovídio (43 a.C. – 18 d.C.).

A Arqueologia tem produzido uma quantidade imensa de testemunhos sobre a religião e a mitologia grega antiga, a começar pelas inscrições em santuários e em outros lugares de culto, que nos permitem ter uma noção da devoção na religião olímpica em seu cotidiano. Os restos dos templos gregos mostram-nos a onipresença da mitologia entre os gregos. O templo de Apolo em Delfos, em uma paisagem montanhosa fabulosa, ainda hoje impressiona o visitante. O omphalós, ou umbigo, de mármore decorado, cópia romana do original grego, encontra-se no Museu de Delfos, e nos dá uma sensação muito direta do “umbigo do mundo”. Há, ainda, belíssimas representações na estatuária antiga, assim como nas moedas, nos vasos gregos pintados e até mesmo nas paredes romanas que reproduziam quadros mitológicos gregos. Um simples sarcófago podia mostrar imagens vívidas, como no caso de Neoptólemo, filho de Aquiles, que apedreja Plixena, filha do rei de Tróia. Personagens mitológicos como os centauros ganham vida nos relevos e pinturas antigas reveladas pela Arqueologia.

As fontes arqueológicas fornecem muitas informações independentes das obras literárias. O famoso cavalo de Tróia, usado para esconder os guerreiros gregos como um falso presente para os troianos, não aparece na Ilíada, apenas na Odisséia é mencionado, mas aparece em muitas representações antigas, como em vasos arcaicos de cerâmica. O namoro de Marte (Ares) e Vênus (Afrodite), retratado em uma parede da cidade romana de Pompéia, reproduz um quadro grego que mostra bem o caráter antropomorfo dos deuses gregos, assim como a morte de Penteu é retratada com emoção, ou como o saque de Tróia aparece algo real (para os antigos, o mito era uma história verdadeira). Hermes, o deus de tantas facetas masculinas, é às vezes apresentado como um jovenzinho.

As fontes, literárias ou arqueológicas, não falam por si só, nem são tão claras quanto podem parecer. Por isso, para que possamos estudá-las é necessário lermos também obras que interpretem a mitologia antiga e estabeleçam certos princípios de interpretação. Convém, portanto, ler aqueles estudiosos da nossa época que procuraram entender como a mitologia grega funcionava e fazia sentido. Talvez o autor mais relevante, para isso, seja o helenista francês Jean-Pierre Vernant, autor de inúmeras obras sobre a mitologia grega. Para um contato inicial, o mais saboroso, até para se ler com crianças, é o seu O universo, os deuses e os homens. Todos os seus livros para adultos são grandes guias. Em uma palavra, pode-se dizer que Vernant interpreta toda a mitologia como uma oposição binária entre princípios, como masculino e feminino, bosque e lar, rua e casa. Várias de suas obras estão traduzidas para o português.  

Tendo uma leitura metodológica como essa, a leitura direta das fontes constitui o passo seguinte. O que indicar, já que há tanta coisa publicada? Essa será sempre uma escolha muito pessoal, a depender do gosto e dos interesses de cada um. A Ilíada, de Homero, na tradução espetacular de Haroldo de Campos, seria uma leitura tanto prazerosa como instrutiva, uma introdução geral. Em seguida, na mesma linha de uma versão direta do original grego e com imensa fidelidade, seria recomendável um clássico como As bacantes, de Eurípides, vertida por Trajano Vieira. Em ambos os casos, as traduções dão bem o gosto, no leitor, da especificidade do original antigo, das nuances dos personagens, dos inúmeros e importantíssimos trocadilhos e jogos de palavras.

As fontes arqueológicas podem ser bem acessadas em uma obra como Grécia, de Peter Levi, mas talvez o mais sensível seja assistir a vídeos de produtoras com assessorias científicas, como a BBC, History Channel, Discovery e National Geographic, alguns deles também disponíveis em CDs à venda na internet. Uma visita às coleções de peças clássicas no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (www.mae.usp.br) e do Museu Nacional do Rio de Janeiro (www.mnrj.ufrj.br) seria também de grande proveito.

Pedro Paulo A. Funari
é professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Coordenador-Associado do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE-Unicamp), autor de Grécia e Roma (São Paulo, Editora Contexto), entre outros livros

Bibliografia sugerida:

CAMPOS, Haroldo. Ilíada de Homero. São Paulo: Mandarim, 2002.
VIEIRA,Trajano. As bacantes. São Paulo: Perspectiva, 2003.
LEVI, Peter. Grécia, 2 volumes. Madrid: Del Prado, 1996 (em português).
VERNANT, Jean Pierre. O universo, os deuses e os homens. São Paulo: Cia das Letras, 2002.
—–. Mito e pensamento entre os gregos. 2a. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
MENELAOS, Stephanídes. Coleção Mitologia helênica (8 volumes), 2ª. ed. São Paulo: Odysseus Editora, 2005.