A influência da cultura punk no vestuário contemporâneo

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A roupa reflete as atitudes e os comportamentos de uma era e faz parte de um sistema que denominamos moda. As duas maiores influências sobre a moda contemporânea vieram dos motociclistas, nos anos 1950, e dos punks, nos anos 1970, e têm como grande traço comum a sua visceralidade.

 

Enquanto os motociclistas trouxeram a visão de liberdade, de poder percorrer a vida pelas estradas que cada um escolher, os punks expressaram seu brutal inconformismo com o consumismo e sua falta de esperança no futuro. O fio que une essas duas culturas se materializa na jaqueta de couro negro, que até hoje permanece como peça referencial do vestuário de quem quer compor um visual rebelde e perturbador.

O punk é uma cultura de visão absolutamente contemporânea e faz uma síntese tão bem desenhada dos grupos urbanos que permanece vivo até hoje e praticamente consegue se eternizar. É uma cultura totalmente aceita pela sociedade atual e possui uma estética muito bem resolvida, de forma que até mesmo um tailleur Chanel acaba se adaptando à sua linguagem. Sua influência sobre a indumentária é tão extensa que, no momento em que estamos usando uma bota, jeans detonados, roupas e acessórios de metal, piercings, cabelos raspados ou espetados, estamos nos servindo do que  é manifestamente oriundo da cultura punk.

Lá se vão quase 30 anos desde o início do movimento punk na Inglaterra, e desde que Vivienne Westwood capturou as tendências de comportamento dos jovens operários ingleses desempregados e as materializou, junto com Malcom McLaren, numa coleção que surpreendeu o mundo, se desenvolvendo nos anos seguintes.

Rendeu à estilista o título de Rainha Punk e, coroando sua carreira, a única exposição de moda na história do museu Victoria & Albert, em Londres, em 2004.

Ao longo dos anos, diversos estilistas tomaram o punk assumidamente como referência para criação de suas coleções, dentre eles Jean-Paul Gaultier e Versace, nos anos 1990. Aqui no Brasil, a Ellus teve o punk dos anos 1970 como tema de sua coleção no Morumbi Fashion de 2000, enquanto o estilista Alexandre Herchovitch fez sua leitura do movimento, misturada ao rock e ao country, apresentando ao país os vaqueiros punks na São Paulo Fashion Week de 2001.

O punk é uma referência identificada por marcas e estilistas famosos que permeia nossa moda até os dias de hoje.

Os punks conseguiram de um modo inequivocamente feliz (com o perdão do trocadilho) colocar nas roupas a sua atitude em relação à grande tragédia urbana que vivemos. Dentro da história da indumentária mais recente, ou até mesmo da história do século 20, não houve um grupo social que tenha tido uma estética tão forte e tão trágica, de tal forma que a estética punk é bem mais forte que a música punk.

Enquanto a música teve uma grande força na década de 1980, a estética punk continua forte, influenciando a indumentária em quase todos os seus itens, como por exemplo nas bolsas, que nos últimos três anos têm correntes e metais como principal elemento de seu estilo.

O punk é denúncia do consumismo e reflete a falta de esperança dos jovens, o medo do futuro e a tragédia do planeta. Pode-se dizer que é de certa forma a continuação da cultura hippie, no que diz respeito à denúncia do consumismo. Mas para os hippies essa denúncia veio com alegria, esperança e romantismo, naquilo que ficou conhecido como “make love not war”. Ali se fazia o amor e se usavam roupas leves, naturais, coloridas e floridas.

No punk, “não há esperança, é o movimento”. E isso se traduz no abandono quase total das cores – ficaram o preto e o branco, em modelos simples e clássicos de corte tradicional, mas com rasgos intencionais e buracos planejados, num toque de degenerescência, decadência e mendicância que pode ser facilmente encontrado na grande maioria das roupas atuais.

Repete-se assim, mais uma vez, um ciclo bastante normal na história da indumentária: os modismos de ponta, que sempre começam nos grupos marginais, vão pouco a pouco sendo absorvidos pela sociedade tradicional, que não quer se mostrar “careta”, mas sim integrada ao mundo.

Então, da mesma forma que num ciclo anterior o rock and roll oriundo da música negra viu em Elvis Presley um dos seus expoentes máximos, a estética punk, com seus piercings, roupas de couro, silhueta justa e despojada e roupa rasgada, pelo uso ou pela violência em comprar uma roupa nova e rasgá-la, passa a ser aceita e incorporada pela sociedade. A estética que foge dos artifícios do belo é moda.

André Ricardo Robic
é diretor executivo do IBModa – Instituto Brasileiro de Moda, Doutor e Mestre em Administração pela FEA/USP e pesquisador e professor universitário em Pesquisa e Comportamento do Consumidor

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Comentários (2)

  • Priscila |

    02/08/2010

    Olá, adorei o artigo.
    Estou fazendo meu TCC com o mesmo tema, mas sobre a Cultura Hippie. Achei muito interessante, caso tiver algo sobre o assunto para compartihar…

    abçs

  • Ivan Carvalho da Silva |

    09/03/2011

    Ótimo artigo, André Ricardo. Eu estou desenvolvendo meu projeto de pesquisa da faculdade, curso Comunicação Social/ Publicidade e Propaganda, e o tema é: “a influencia da cultura punk sobre o vestuário e letras de músicas de bandas de rock brasileiras”. Se tiver algum material sobre o tema, é so enviar para o e-mail: ivan-maquinarios@hotmail.com

    Abraço!